sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A infanticida Maria Farrar

 (re-post)

Maria Farrar, nascida em abril,
sem sinais particulares,
menor de idade, orfã, raquítica,
ao que parece matou um menino
da maneira que se segue,
sentindo-se sem culpa.
Afirma que grávida de dois meses
no porão da casa de uma dona
tentou abortar com duas injeções
dolorosas, diz ela,
mas sem resultado.
E bebeu pimenta em pó
com álcool, mas o efeito
foi apenas de purgante.
Mas vós, por favor, não deveis
vos indignar.
Toda criatura precisa da ajuda dos outros.
Seu ventre inchara, agora a olhos vistos
e ela própria, criança, ainda crescia.
E lhe veio a tal tonteira no mei do ofício das matinas
e suou também de angústia aos pés do altar.
Mas conservou em segredo o estado em que se achava
até que as dores do parto lhe chegaram.
Então, tinha acontecido também a ela,
assim feiosa, cair em tentação.
Mas vós, por favor, não vos indigneis.
Toda criatura precisa da ajuda dos outros.
Naquele dia, disse, logo pela manhã,
ao lavar as escadas sentiu uma pontada
como se fossem alfinetadas na barriga.
Mas ainda consegue ocultar sua moléstia
e o dia inteirinho, estendendo paninhos,
buscava solução.
Depois lhe vem à mente que tem que dar à luz
e logo sente um aperto no coração.
Chegou em casa tarde.
Mas vós, por favor, não vos indigneis.
Toda criatura precisa da ajuda dos outros.
Chamaram-na enquanto ainda dormia.
Tinha caído neve e havia que varrê-la,
às onze terminou. Um dia bem comprido.
Sòmente à noite pode parir em paz.
E deu à luz, pelo que disse, a um filho
mas ela não era como as outras mães.
Mas vós, por favor, não vos indigneis.
Toda criatura precisa da ajuda dos outros.
Com as últimas forças, ela disse, prosseguindo,
dado que no seu quarto o frio era mortal,
se arrastou até a privada, e ali,
quando não mais se lembra,
pariu como pôde quase ao amanhecer.
Narra que a esta altura estava transtornadíssima,
e meio endurecida e que o garoto, o segurava a custo
pois que nevava dentro da latrina.
Entre o quarto e a privada
o menino prorrompeu em pratos
e isso a perturbou de tal maneira, ela disse,
que se pôs a socá-lo
às cegas, tanto, sem cessar,
até o fim da noite.
E de manhã o escondeu então no lavatório.
Mas vós, por favor, não deveis vos indignar,
toda criatura precisa da ajuda dos outros.
Maria Farrar, nascida em abril,
morta no cárcere de Moissen,
menina-mãe condenada,
quer mostrar a todos o quanto somos frágeis.
Vós que parís em leito confortável
e chamais bendido vosso ventre inchado,
não deveis execrar os fracos e desamparados.
Por obséquio, pois, não vos indigneis.
Toda criatura precisa da ajuda dos outros.


Brecht

sábado, 4 de junho de 2011

Sociedade, mídia, maternidade e a pró anulação total da mulher

Algumas pessoas acham que eu sou totalmente contra a maternidade, praticamente uma assassina de bebezinhos.. Talvez as vezes minhas palavras sejam duras demais, ou talvez as pessoas que sejam hipócritas demais, vá saber.. Enfim, como já disse em outros posts, não tenho nada contra a maternidade enquanto escolha da mulher, enquanto algo saudável, acho sim a maternidade algo nosso, algo da mulher, algo realmente maravilhoso. O que eu não concordo e não aceito são os tabus, generalizações, mitos em torno da maternidade.   Não acho que a maternidade é a melhor fase da vida de TODA a mulher, não acho que TODA mãe ama seu filho, não concordo com esses clichês básicos. Creio que a maternidade pode ser a melhor fase ou a pior fase da vida de uma mulher, ou até somente uma fase. 

Mas hoje eu quero falar sobre o incentivo à anulação total da mulher. Eu acredito verdadeiramente, que a toda hora a sociedade tenta prender a mulher, amarra-la, amordaça-la, e esse processo se manifesta na questão da maternidade. Você já deve ter ouvido a frase: ser mãe é padecer no paraíso.. Você já deve ter visto a verdadeira idolatria que alguns setores fazem para mulher que por uma série de motivos se anula totalmente em prol dos filhos, em prol da família. 

Algum tempo atrás eu tive a oportunidade de conhecer um projeto que foi desenvolvido na APAE para as mães das crianças que frequentavam a instituição. A equipe da entidade notou o quanto aquelas mães focavam as 24 horas do seu dia nos filhos, e durante as sessões de atendimento, quando estavam distantes dos filhos, ficavam sentadas, inertes, porque não tinham absolutamente nada para fazer. O filho havia se tornado totalmente a sua vida, e esse processo se tornou mecânico, foi esquecido que essa mãe, é também uma mulher, um ser humano que também tem seus desejos, sofrimentos, dores, alegrias.

Mulheres em atividades enquanto seus filhos recebem atendimento na APAE
Esse projeto ofereceu uma série de atividades para as mulheres, enquanto os filhos estavam em atendimento:Yoga, ouvir musica, pintura, reciclagem, artesanato, cuidados com a pele, cabelo, a mulher podia escolher a atividade que gostaria de desenvolver. E um tempo depois, do projeto em desenvolvimento, era notório a mudança nessas mulheres, como a auto-estima, a energia mudou, inclusive a melhora na relação mãe e filho que ganhou vigor novo. Independente da situação, mães também são mulheres, e mulher é gente também. 

A sociedade incentiva "mães coragem", se a mãe tiver uma aparência cansada, fatigada, esta será uma boa mãe. Se você ver uma mulher que tem filhos, trabalha, tem uma série de outras atividades, esta será imediatamente questionada e julgada, pois não deve estar dando atenção suficiente ao filho, as pessoas não conhecem a sua rotina, a qualidade do tempo entre pais e filhos, mas ela será julgada. 

A mídia é também outro carrasco, que muitas vezes utiliza a dor e sofrimento de muitas mulheres, para mostrar uma face de "mãe coragem midiatica", lucrar e vender encima do sofrimento. Lembro-me anos atrás do caso da Menina Marcela, uma menina que nasceu com um tipo de anencefalia (não era total), sobreviveu alguns meses, tendo todo o carinho, amor e suporte 24 horas de sua mãe. Dona Cacilda escolheu ter a filha e cuidar da pequena durante seu curto tempo de vida. Tenho toda admiração por esta mulher, uma mulher muito forte, determinada, que decidiu estar ali e foi até o fim. A midia a transformou em um ser sobrenatural assexuado e vendeu sua historia. Envolta em uma trama, expôs a vida da família, e as imagens da menina para vender jornal para curiosos. Aqui lembro-me da igreja católica (instituição esta que a cada dia tenho menos respeito) utilizando a historia desta mulher e sua filha para a campanha contra a descriminalização do aborto, lembro-me da exposição da dor desta mulher e da própria filha, utilizando toda a historia de vida para dizer que todas as mulheres deveriam ser assim, as que não eram, eram pecadoras condenáveis. 

Dona Cacilda
Você acha que algum desses grupos enxergou a menina Marcela e sua brava mãe? Você acha que eles realmente se importaram com a historia das duas, com os sentimentos, às respeitaram? Não. Pelo menos a grande maioria destas pessoas que tinham interesses em jogo neste caso, usaram somente para beneficio próprio.  

A maternidade na nossa sociedade infelizmente segue sendo moeda, obrigação, saída, fardo para as mulheres. Nós temos contextos fortemente enraizados que autenticam e disseminam que quanto mais a mulher sofre, "mais mãe" ela é. Se ela chegar ao ponto da anulação total,então ela chegou no ápice do exercer da maternidade. No fundo de tudo isso, segue aquilo que trazemos marcado em nossos corpos, o valor da mulher esta nos papéis legitimados que ela exerce. É a mãe "virgem maria", é a mulher santificada, e voltamos para a dicotomia da nossa sociedade: mulher santa ou puta. 


Em alguns contextos temos meninas que vêem na maternidade a porta para sua autonomia, a partir do momento que ela gera filhos, ela será adulta, estará numa classe superior, terá alguns benefícios, se livrará de algumas amarras, sem perceber que esta entrando em novas amarras. E falo aqui de meninas muito jovens, este ano conheci meninas incríveis que vivem nessa situação. Uma das meninas que conheci engravidou para poder ter um quarto separado na casa e adquirir o status de adulta, outra porque queria formar uma família logo, a outra para se legitimar perante seu circulo social. 

Esse fenómeno vemos também em mulheres adultas. Não são poucas as mulheres com sérios problemas de autoestima, insegurança, frustrações diversas na vida pessoal e profissional, que vêm na maternidade a solução para seus problemas. O gerar um filho instantaneamente dará para ela um reconhecimento do seu circulo social, ela pode sufocar suas frustrações, traumas, medos, no dedicar-se a outra pessoa. Eu não considero isso um processo saudável. Até porque isso costuma gerar mulheres que passam a vida inteira abnegadas, colecionando amarguras sufocadas, pois ela jamais pode conversar sobre seus sentimentos. Não é projetando em outro ser nossas expectativas, frustrações, não é usando um slogan de abnegação para não enxergarmos nossas misérias que vamos resolver alguma coisa. 

Maternidade deve ser um processo saudável para a mulher, escolhido, desejado, planejado, se não foi planejado, pelo menos aceito. Incentivar a anulação total da mulher, exaltar o sentimento de abnegação, obrigar a mulher a suportar todas as dificuldades do seu dia sozinha, pois quanto mais problemas melhor, é cruel, é desumano. E temos inúmeras mulheres acreditando que ser mãe é sofrer. Que é essa a suprema missão. E eu digo, não acredito que as pessoas nasçam para sofrer, não acredito na propaganda do sofrimento, não acredito na abnegação como prova de alguma coisa. Respeito as mulheres, e acho interessante a reflexão, a análise critica. Será que tem que ser assim? 

Como já disse alguns posts atrás, espero que nós mulheres possamos vivenciar a maternidade de forma saudável, madura. Que ela com todo o cargo de responsabilidade por educar uma criança, com todos os problemas, ainda possa ser prazerosa, e que as mulheres possam conhecer e escolher. Conhecer-se e conhecer o seu redor, conhecer as construções sociais e culturais que existem sobre a capacidade reprodutiva da mulher, e que ela possa escolher livremente, a escolha só é totalmente liberta quando aliada ao conhecimento. Conhecer para decidir. 

Que as mulheres que desejam ter e que tem filhos, possam desfrutar desse importante acontecimento de forma plena e sadia. Eu concordo com a Grande Simone de Beauvoir quando ela diz que a autonomia da mulher, a libertação da mulher, passa pela independência financeira, que as mulheres possam ser independentes financeiramente tendo ou não filhos, que possam conversar e contar com seus companheiros e companheiras, como parceiros, em uma relação sadia para ambos, sem posses, sem amarras. 


No dia em que as escolhas forem respeitadas, onde uma mulher possa decidir ter ou não filhos, sem receber estigmas de parideira ou seca mal comida, esse será um dia muito legal!

Que sejamos libertas e possamos criticamente analisar a nossa situação, analisar nossas escolhas e descobrir o que foi minha escolha, ou o que foi pressão, o que foi construção de um papel que eu assumi como fuga, achando que era o único. 

Que possamos viver plenamente! E sim, que sejamos família, em todas as suas formas, com toda a sua diversidade.


 


 

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Meninos não choram!

por dj_Hans
Hoje estava no ônibus, rumo a um compromisso e uma cena triste mais uma vez, parou minha atenção: Uma jovem moça, com seu filho, creio que o menino deveria ter cerca de 5 anos. Ambos estavam descendo do ônibus, e o menino acabou batendo num banco, e começou a chorar, no momento que estavam para descer. A mãe puxou o menino fortemente pelo braço e disse: Para com isso! Menino não chora! Quer que te vejam assim? Nisso o menino ficou tentando conter as lágrimas, com um olhar muito triste.

Infelizmente não é a primeira vez que vejo isso, creio que na verdade toda a semana eu vejo alguma cena parecida, onde a mãe, pai, tio, avó, poda a criança com frases do tipo: não chora, menino não chora! Lembro também da outra frase similar, que as meninas escutam muito: Para! Esta parecendo um guri! Mas é dos meninos que quero falar hoje. Dos meninos que não choram!

Sabem que quando vi aquele menino tentando segurar o choro, pq meninos não choram, por mais esquisito que possa parecer, de certa forma me imaginei como aquele menino, sendo puxado pela mãe, segurando o bracinho que havia batido, provavelmente assustado, sentindo dor, e aprendendo uma grande lição: de que homens não choram,  homens são fortes, não devem mostrar fragilidades. Você pode estar pensando que “ahh isso não fará diferença, o que é uma frasezinha..”. Repita essa frase durante anos, crie uma criança num ambiente onde o homem é forte e não pode chorar, e você pode ver os resultados ( mas não faça isso não).

Esse menino do ônibus me lembrou de outro menino do ano passado. Onde na turma de uma amiga, um menino ainda do Jardim de Infância, que nem conseguia articular bem as palavras, disse para os amiguinhos: mulher é igual lata, um chuta e o outro cata. Toda a turma sorriu, e obviamente ele continuou repetindo, até a professora parar, intervir e conversar com ele sobre o que ele estava dizendo. Essa minha amiga ainda parou e conversou, depois fez um contato com a família para tentar intervir um pouco nesse contexto que levou esse menino a reproduzir aquela frase. Agora eu imagino, quantas vezes nós paramos para intervir? Muitas vezes nós simplesmente deixamos passar. Eu no ônibus, não consegui fazer nada, aquela moça desceu, e provavelmente vai seguir reforçando esta idéia de que homem não chora, na cabeça daquele menino. Foi assim que ela aprendeu.

Homens não choram! Como somos cruéis e nem mais percebemos! Como podemos ter essa necessidade doentia de colocar as pessoas em categorias e exigir que as mesmas permaneçam ali, vivenciando o papel que lhe é imposto. Homem não chora, homem é forte, homem é chefe, homem é comedor. É isso que reforçamos nos meninos, o quanto antes estamos lá colocando na cabecinha dos mesmos que: homem é forte e não pode mostrar fragilidade, pq isso é coisa do sexo oposto, isso é coisa do feminino, as mulheres que são fragéis, delicadas e DEVEM chorar, implícito mandamos a mensagem da inferioridade.

Eu me lembro aqui, de uma reunião familiar, alguns anos atrás, quando eu ainda mantinha contato com a minha família biológica, onde uma determinada pessoa disse, que quando o filho completa-se 13 anos ia levar ele na zona pra virar homem, isso deve ter sido em que ano, creio que 2007, faz pouco tempo, e todos riram e cobraram daquela criança a atitude de “um homem”.  Lembro de quando eu acompanhei o nascimento de um menino, e as pessoas ficavam exaltando que ele era “sacudo”, tinha o saco “bem roxo”, era sacudo como o pai, e todos riam e exaltavam e já começavam as brincadeiras sobre as menininhas que ele iria pegar em alguns anos.

Meninos não choram! Como temos coragem de instantaneamente proibir uma criança de  derramar lágrimas? Em nome de um papel social, em nome de uma construção patriarcal doentia que esta enraizada em nós, que nem mais percebemos, nos apodrecendo por dentro, nós temos a coragem de olhar nos olhos de um menino que caiu e ralou o joelho e dizer naquele momento de dor: Menino não chora! Levanta! E com essa frase "menino não chora" ecoando em tantas escolas, casas, ruas, nós aprofundamos as raízes da opressão,  nós forjamos mais grilhões para nos aprisionarem, nós sufocamos o sentimento, e incentivamos a fuga, a violência, o ressentimento.

Meninos não choram? Menino, você pode chorar sim!
Nós choramos perante tanta opressão e dor.

Ana Rita Dutra dos Santos