E chegou o dia das mães. Nesta sexta feira o centro da cidade estava insuportável, o comercio mais uma vez lotado, decorações em tom rosa com flores por todos os lados! Na volta para casa reparei na campanha publicitaria de uma loja: logo na fachada da loja, uma faixa com letras garrafais dizia: Ela pode mandar em casa, mas quem manda no presente é você. Outra loja fazia alusão às "presidentas do lar".
Eu não tenho nada contra a maternidade, contra o ser mãe. Defendo o direito que as mulheres tem em gerar ou não filhos, uma escolha pessoal, legitima. O que me irrita, me deixa puta é a necessidade que a sociedade como um todo tem de sacralizar, exaltar, tornar obrigatório e envolver em um véu de maravilhoso, todos aqueles papeis que ela considera obrigatório do feminino: ser mãe, ser esposa, ser frágil, gostar de cozinhar, isso e aquilo. Enraizamos isso nas meninas! Desde cedo procuramos adestrar para que a mulher desempenhe "o seu santo papel".
Frases do tipo: "toda mulher quer ser mãe", "toda mãe ama seu filho", "toda mãe é realizada", "só as mães são felizes", " a melhor fase da vida de uma mulher é a maternidade", me revoltam o estômago. A mulher deve ser mãe, e a mãe deve ser perfeita, ela deve estar no padrão que lhe é imposto.
Nem toda mulher quer ser mãe, nem toda mãe ama seu filho, nem toda mulher se sente na melhor fase da sua vida ao vivenciar a maternidade. O que eu noto, e tenho notado cada dia mais é uma gama de mulheres mães infelizes que sofrem caladas, pois não lhe é permitido falar. Assim como no caso da mulher que engravida e não aceita, que não quer, não lhe é permitido falar, expressar seus sentimentos, o mesmo ocorre com a mulher que já possui filhos, mas vivência uma série de amarguras e frustrações. Elas são silenciadas, pq? Pq onde já se viu uma mulher rejeitar a maternidade, rejeitar uma gestação, não querer uma criança? A mulher é obrigada a aceitar o papel de mãe, obrigada a gostar e exaltar isso, sua verdade, seus sentimentos contrários jamais podem ser trazidos a tona. Nem quando a rejeição da mulher por seu filho se dá por uma patologia como a depressão pós parto, ela é aceita, até neste momento ela é condenada.
Parafraseando a colocação de uma colega hoje, essa semana outro pai esqueceu o filho dentro do carro e o bebe acabou falecendo. Isso me levou a uma reflexão..
Acompanhando a repercussão, olhando o vídeos da reportagens, TODOS os comentários são de apoio ao pai. Pessoas dando apoio, carinho, entendendo o que aconteceu pois era o stress, a correria do dia a dia, o homem estava sobrecarregado de trabalho, etc. NINGUÉM o acusou. AGORA qdo surgem noticias de mulheres recém paridas que estão CLARAMENTE, comprovadamente em depressão pós parto, muitas vezes sozinhas, e acabam matando o bebê, abandonando, dai para a imprensa e para a sociedade em geral é um MONSTROOOOO, uma CADELA, SEM VERGONHA, VAGABUNDA, CRETINA, SEM CORAÇÃO, que não cuida do filho, e isso não tem perdão. Os tratamentos nos dois casos são bem distintos.
Essa semana eu acompanhei o caso de um menino que foi levado pela tia para delegacia, esta denunciou que o sobrinho de 10 anos estava sendo abusado pelo padrasto. A mãe foi chamada para prestar esclarecimentos e a mesma depois de ficar a par de toda a situação, disse que não queria o menino novamente em casa, pois ele deve ter seduzido o marido, e se não contou, era porque deve ter gostado do que aconteceu. A mãe de uma outra menina expulsou a filha de casa aos 13 anos ao descobrir que a mesma foi estuprada pelo pai; Em um caso chocante a alguns anos atrás, a mãe foi acusada de co-autoria de estupro, pois ela segurava a filha para que o marido estupra-se a menina.. Nem tudo são rosas quando o assunto é maternidade! Algumas mulheres chegam a este ponto total de anulação. Mulheres machistas, não brotam da terra, elas são forjadas em um contexto de muita dor, alienação, desvalorização, muitas vezes transformando-se em relações doentias.
Eu acredito sim que a maternidade é um poder feminino! É sim! A gestação é algo que ocorre no nosso corpo, o poder de gerar um filho, parir, amamentar, é algo maravilhoso e PODE ser uma experiência incrível na vida de uma mulher, mas ela também pode ser um momento de muita dor, de ódio, de repulsa, de fragelo. Uma mulher que engravida de um estupro, uma menina abusada pelo pai que engravida, uma senhora que engravida do marido abusador durante um processo de ruptura, essas mulheres não estão vivenciando a melhor fase de sua vida. É muito hipócrita de nossa parte, renegar toda a realidade que acompanhamos em nosso dia a dia, e optar por viver uma fantasia, em vez de encarar o problema e agir, tentar assistir essas mulheres neste momento de dor que a maternidade se tornou. É encarando a realidade e lutando que podemos mudar!
Você ja pensou como seria melhor se uma mulher que tem um filho pudesse desabafar e conversar sobre seus sentimentos? Imagine um mundo onde uma mulher poderia dizer: Eu não sinto vinculo com essa criança, ou mesmo, eu o amo, mas estou tão cansada, quero mais tempo para mim.. Sem levar uma caralhada de pedras! Como seria bom se pudesse haver a partilha, a troca, o auxilio, em vez de toda a mulher que é mãe ser obrigada a exaltar somente o lado bom, e afogar a dor de seu dia a dia.
Mãe é só uma? Não! Mães são várias! Temos mães que são mães e pais, que são tias, avós, casadas, solteiras, heterossexuais, homossexuais, tb temos mães que jamais geraram um filho! Sou a favor da escolha da mulher em exercer a maternidade, seja pela via biológica ou não, não sou a favor da total anulação da mulher, em prol da encenação de um papel de mãe padecendo no paraíso. A vida não tem que ser só tormentos e abnegação para a mulher. A vida deve ser prazerosa! Devemos viver em plenitude, sendo mães ou não!
Feliz dia das mães! Que este processo seja algo saudável para as mulheres, escolhido, desejado, jamais obrigado!






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